Gilberto Gil mostra o Além do Carmo para a revista ViajeAqui

Matéria "Um xodó assim" da revista Viaje Aqui relatando um passeio onde GilbertoGil descreve o Santo Antonio, local onde passou parte da sua infância e adolescencia. - publicada em setembro 2009

"Finalmente, alcançamos o Santo Antônio Além do Carmo, nome com que o bairro se tornou conhecido (fica logo depois do Carmo, a uma caminhada do Pelourinho). Gil se empolga. "Aqui é o Santo Antônio, Largo do Santo Antônio. Esse é o Forte da Capoeira." O monumento começou a ser construído no século 17, já serviu como casa de detenção e hoje, todo reformado, é um centro de cultura popular. "Eu brincava muito aqui na frente." Não demora e começa a aparecer gente, ou melhor, conhecidos de Gil. Uma das funcionárias chega beijando, é do mesmo terreiro de sua mulher, Flora. O mestre Curió interrompe a roda de capoeira lá dentro e traz os alunos até o pátio para uma cantoria em homenagem ao emérito visitante.

Da casa onde morou, na Rua dos Marchantes, restou apenas a fachada, como se fosse um cenário. A visão do lugar, que apesar dos carros zanzando continua bucólico, desperta nele uma profusão de lembranças e nomes. "Valdo, Zélia, Amor, Mário... Mário era o menino da maconha! Ali morava o açougueiro, seu Gaudêncio. Aqui tinha um sapateiro, Cândido. Ali tinha a quitanda do Carvalho, bem ali. Aqui era um bar de um galego, o Manolo. Ali naquela casa verde fi cava a professora de piano da minha irmã, professora Mariah. Ali ficava o Moinho da Bahia, famoso..." As reticências servem pra fisgar um refrão: "O Moinho da Bahia queimou, quei-queimou, deixa queimar..."

Caminhando, alcançamos o Plano Inclinado Pilar, o elevador que liga o comércio atrás do Trapiche, na cidade baixa, à área da Cruz do Paschoal, no Santo Antônio. "Isso aí era a única ligação de transporte direto que havia com a cidade baixa, diretamente com o porto. Então, aqui era um bairro muito frequentado por marinheiros militares e civis. Os trabalhadores também, todo mundo que morava na Liberdade, todos esses bairros daqui, eles vinham de lotação ou de ônibus, saltavam aqui pra pegar o elevador pra ir pro trabalho. Era ponto efervescente da cidade." Quando era moleque, Beto, como era chamado, não saía dali, desafiando os encarregados das máquinas. "A gente parava ali no meio!" Os olhos de Gil brilham, ele parece absorvido pelas recordações de menino. O operador que hoje está lá não admite brincadeiras nos trilhos. "Não, não pode", responde com autoridade. Gil retruca: "Ah, no meu tempo..."

Não demora e esbarramos nas origens de uma antiga canção. "A Ione morava ali... Minha primeira música, Felicidade Vem Depois, foi pra ela. (Cantarola) 'Se você disser que ainda me quer, amor/Eu vou correndo lhe abraçar'." E daí ele emenda um mapa simplifi cado da região. "E aqui é a Ladeira do Akidabã. Pra lá seguia pro Barbalho, pra Liberdade, pro Curuzu, Soledade etc. Aqui descia pra Baixa de Quintas, Baixa do Sapateiro... E logo lá em frente era o Carmo, o Convento do Carmo, que hoje é hotel. No Convento do Carmo a gente assistia à missa, jogava bola..."

 

http://viajeaqui.abril.com.br/vt/materias/vt_materia_494978.shtml?page=3

 
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